Divagações: The Secret Life of Walter Mitty

Ben Stiller nunca foi meu ator favorito, quanto mais um diretor para se levar a sério – e digo isso na posição de alguém que gostou de T...

Ben Stiller nunca foi meu ator favorito, quanto mais um diretor para se levar a sério – e digo isso na posição de alguém que gostou de Tropic Thunder. Porém, The Secret Life of Walter Mitty prometia ser um salto na carreira de Stiller, que não conseguia se descolar dos filmes engraçadinhos e das dublagens de animações. O trailer já anunciava o seu potencial, com uma estética bem pensada, linguagem minimalista e uma aparente profundidade: esse filme poderia ser para Stiller o que Eternal Sunshine of the Spotless Mind foi para Jim Carrey.

O personagem título, Walter Mitty (Ben Stiller), é um tímido editor de fotos da revista Time. Sua tendência a sair constantemente do ar perdido em devaneios o coloca em uma posição nada confortável no momento em que Ted Hendricks (Adam Scott) assume a gerência da publicação na sua transição para o online. Quando o negativo da foto de capa da última edição desaparece, Walter sai em busca do fotógrafo, o excêntrico Sean O'Connell (Sean Penn), em uma tentativa desesperada para salvar seu emprego e o de sua colega e interesse amoroso, Cheryl Melhoff (Kristen Wiig).

Apesar de ter sido inicialmente pensada como um remake do filme homônimo de 1947, a produção se distanciou muito do seu predecessor, tornando-se uma repaginação que mantém poucos pontos em comum com o clássico estrelado por Danny Kaye. Porém, essa é uma mudança bem-vinda, pois dá um tom bem mais sério a um filme que, se executado de modo leviano, poderia ser apenas mais um.

Para mim, esse é de longe o melhor trabalho de Ben Stiller, sobretudo na direção, conseguindo manter o nível da ótima edição e fotografia. A sua atuação, mesmo não sendo fantástica, sustenta bem o filme, conseguindo demonstrar uma evolução orgânica (mesmo que apressada) do personagem. Sean Penn, mesmo dando o ar de sua graça por apenas dez minutos, é excelente no papel, dando uma camada a mais de profundidade e credibilidade à mensagem central do filme.

O roteiro em si não impressiona, mas a execução compensa as suas fraquezas, sobretudo quando se pode contar com as belas paisagens da Islândia e da Groenlândia, surpreendentemente ignoradas pelo cinema. A trilha sonora é muito bem escolhida e complementa bem o que acontece em cena, ajudando a dar aquele aspecto ‘inspirador’ para a jornada do protagonista e transformando The Secret Life of Walter Mitty em um ótimo exemplar de ‘feel good movie’.

Porém, o filme tem algumas falhas de ritmo notáveis, sendo muito apressado em certos momentos e muito arrastado em outros. Os devaneios de Walter – que sempre foram a característica marcante do personagem em todas as suas versões –, mesmo sendo muito bacanas visualmente, parecem extremamente desnecessários, tirando a atenção da trama principal e agregando muito pouco à história. Não é a toa que a segunda metade do filme é a que realmente encanta e fascina, quando ele passa a ser muito mais uma jornada de autodescoberta que uma comédia bobinha.

Talvez esse filme seja deixado de lado pela maioria do público em meio à enxurrada de lançamentos de fim de ano, porém, é o tipo de obra que merece alguma atenção. Mesmo não sendo um forte candidato ao Oscar, tão grandioso e épico quanto Life of Pi ou tão profundo e contemplativo quanto The Tree of Life, The Secret Life of Walter Mitty tenta de seu próprio modo – certamente mais descontraído e despretensioso – dar uma lição sobre as maravilhas que nos cercam e o valor de nossas vidas.


Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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