Divagações: The Big Short

De vez em quando surge algum filme que tenta ao máximo escapar de uma categorização precisa, misturando elementos, trabalhando com temáti...

De vez em quando surge algum filme que tenta ao máximo escapar de uma categorização precisa, misturando elementos, trabalhando com temáticas aparentemente dissonantes ou empregando técnicas narrativas consideradas estranhas a certos gêneros cinematográficos. Ainda que em muitas ocasiões isso resulte em uma mistura amorfa e desinteressante, de vez em quando este processo é bem feito o suficiente para criar algo que genuinamente atiça a curiosidade do público.

Quando estamos falando em fazer comédia com uma situação verdadeiramente trágica, como nesse caso, a falta de tato pode colocar tudo a perder – e o que seria cômico apenas beira o mal gosto. Esse foi o risco que The Big Short tomou ao tentar transformar a crise econômica que assolou os Estados Unidos em 2007 em algo que não fosse apenas palatável, mas também divertido. Um grande desafio, ainda mais levando em consideração que a primeira coisa que pensamos ao lembrar da crise são as pessoas perdendo os empregos e suas casas.

Dividido em núcleos de personagens excêntricos e ostracizados pelos figurões de Wall Street, The Big Short se foca naqueles que conseguiram ver, antes de todo mundo, toda a fraude e a especulação que sustentava o sistema financeiro americano e ainda apostar contra ele. Tudo começa quando Michael Burry (Christian Bale), um genial analista de finanças, percebe os sinais de um colapso econômico eminente, fazendo uma aposta arriscada que é vista com desconfiança por sua empresa.

Essa ousadia chama a atenção de um investidor oportunista, Jared Vennett (Ryan Gosling), que ao buscar mais capital para a sua empreitada entra em contato com o explosivo e cínico chefe de uma firma de investimentos, Mark Baum (Steve Carell), inadvertidamente chamando a atenção de Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois jovens sócios de uma empresa financeira em ascensão, porém ainda sem reconhecimento do mercado.

O grande mérito do diretor e roteirista, Adam McKay é, justamente, fazer essas pontes entre personagens, temas e conceitos de modo tão competente. Seu trabalho em instituir um ritmo próprio logo no início do filme nos permite achar graça de todas as tragédias que se seguirão no restante da história, dos primeiros sinais da crise aos esforços absurdos de Wall Street em mascarar o colapso do sistema. Não fosse apenas isso, McKay também consegue navegar entre os diversos grupos de personagens dando espaço para cada um mostrar uma faceta diferente do mesmo universo sem deixar ninguém esquecido ou desperdiçar o imenso potencial de seu elenco.

Acima de tudo, o diretor consegue fazer com que um assunto bastante técnico e desinteressante para o público em geral pareça palatável sem apelar para uma extrema simplificação ou um excesso de exposição. Mesmo nas situações em que precisa fazer concessões a respeito disso, o faz de modo elegante e funcional em relação ao resto do filme, beneficiando-se e muito da maneira como ele é pensado e editado, transformando o que podia ser apenas incompreensível em algo até mesmo educativo.

Porém, não existe muita coisa realmente impactante em The Big Short. O filme é bom, mas não existem razões muito claras para exemplificar isso ou demonstrar um tipo incomum de brilhantismo. O elenco estelar talvez cause esse tipo de efeito, levantando a qualidade geral do produto sem necessariamente o transformar em algo revolucionário.

Também não dá para dizer que a produção é isenta de falhas, já que ela talvez seja muito longa e um pouco confusa para uma boa parcela do público que não está lá muito interessada em economia. O elenco numeroso, ainda que bem conduzido, não dá muito espaço para as personalidades individuais brilharem, faltando um grande papel para ajudar este filme a ser lembrado no futuro.

Mas falando em lembrar, acredito que The Big Short consegue atingir o seu principal objetivo, que era justamente colocar o dedo na ferida e fazer o público estadunidense lembrar da crise que assolou o país na década passada e das suas causas, sobretudo porque o país está próximo ao período eleitoral e pouca coisa mudou desde então. Muitos dos culpados permanecem impunes e o sistema bancário continua executando suas práticas predatórias e prejudicando a parte mais frágil da população.

Ainda que estejamos longe do epicentro desses acontecimentos, talvez em um momento de recessão como o que o próprio Brasil passa, não custe muito dar uma ida aos cinemas e, quem sabe, aprender um pouco com os erros dos outros. Não é verdade?

Outras divagações:

Texto: Vinicius Ricardo Tomal
Edição: Renata Bossle

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